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Conto: Um Sussurro nas Trevas – Parte 2

Um Sussurro nas Trevas

H. P. Lovecraft

II

suss2Como era natural nas circunstâncias, esse acalorado debate terminou chegando à imprensa, na forma de cartas ao Arkham Advertiser; algumas dessas cartas foram transcritas nos jornais das regiões do Vermont de onde vinham os relatos das cheias. O Rutland Herald estampou meia página de excertos das cartas, defendendo ambos os lados da questão, ao passo que o Brattleboro Reformer reproduziu na íntegra um de meus longos ensaios históricos e mitológicos, que saiu acompanhado de comentários que apoiavam e aplaudiam minhas céticas conclusões. Na primavera de 1928 eu me havia transformado quase numa celebridade em todo o Vermont, apesar do fato de nunca ter posto os pés nesse Estado. Foi então que vieram as cartas desafiadoras de Henry Akeley, que me impressionaram de modo tão profundo e que me levara m, pela primeira e última vez, ao reino fascinante de precipícios verdes e murmurantes regatos de florestas.

A maior parte do que sei a respeito de Henry Wentworth Akeley foi obtido através de correspondência com seus vizinhos e com seu filho único, residente na Califórnia, depois de minha experiência em sua fazenda solitária. Ele era, como vim a descobrir, o último representante, em sua terra natal, de uma longa e eminente estirpe de juristas, administradores e fidalgos lavradores. Nele, contudo, a família se desviara de assuntos práticos para a erudição pura; de modo que ele se fizera um notável estudioso de matemática, astronomia, biologia, antropologia e folclore, na Universidade de Vermont. Antes disso, eu nunca tinha ouvido falar dele, nem ele forneceu muitos elementos autobiográficos em suas comunicações. No entanto, à primeira vista percebi tratar-se de homem de caráter, educação e letras, ainda que fosse um misantropo, com pouco ou nada de vaidades mundanas.

Apesar da total implausibilidade do que ele afirmava, não me foi possível deixar de levar Akeley mais a sério do que eu havia levado todos os demais contestadores de meus pontos de vista. Para começar, ele se encontrava realmente próximo aos fenômenos reais — visíveis e tangíveis — sobre os quais teorizava de maneira tão grotesca; e, em segundo lugar, e isso era extraordinário, ele estava disposto a deixar suas conclusões se m um arremate definitivo, como procederia um verdadeiro homem de ciência. Não o moviam quaisquer preferências pessoais, e era sempre orientado por aquilo que considerava ser provas categóricas. É evidente que desde o começo julguei-o enganado, mas respeitei-o por se enganar de maneira inteligente; e em momento algum imitei alguns de seus amigos, que atribuíam suas idéias, tanto quanto o me do que ele nutria pelos solitários montes verdes, à insanidade mental. Eu percebia que o homem era digno de ser levado em conta, e sabia que o que ele afirmava decorria certamente de alguma circunstância estranha que merecia investigação, por menor que fosse sua relação com as causas fantásticas que ele aceitava. Mais tarde, vim a receber dele certas provas materiais que colocaram a questão num plano um tanto diferente e espantosamente absurdo.

A melhor coisa que posso fazer consiste em transcrever por inteiro, na medida do possível, a longa carta com que Akeley se apresentou, e que constituiu marco tão importante em minha própria história intelectual. Essa carta não está mais comigo, porém minha memória guarda quase todas as palavras de sua inacreditável mensagem; e mais uma vez reitero minha confiança na sanidade do homem que a escreveu. Eis o texto, que chegou às minhas mãos na caligrafia trôpega e arcaizante de uma pessoa que, evidentemente, não tivera muito a ver com o mundo durante sua vida de recluso erudito.

Townshend, Windham County, Vermont

5 de maio de 1928

Exmo. Sr.

ALBERT N. WILMARTH

RUA SALTONSTALL, 118

ARKHAM, MASSACHUSETTS

Prezado Senhor:

Foi com grande interesse que li a transcrição, no Brattleboro Reformer de 23-IV-28, de sua carta sobre as recentes histórias sobre corpos estranhos que foram avistados flutuando nas cheias de nossos rios no outono e sobre as curiosas lendas com que tão bem coincidem. É fácil entender o motivo que levaria um forasteiro a assumir a atitude que o senhor defende, e até mesmo por que o redator dos comentários do jornal concorda com o senhor. Essa é a atitude que em geral assumem as pessoas educadas, tanto no Vermont como fora do Estado, e foi também minha própria atitude na juventude (tenho agora 57 anos), antes que meus estudos, tanto os de natureza geral quanto os realizados com base no livro de Davenport, me levassem a realizar algumas explorações em partes dos montes daqui que habitualmente não são visitados.

Fui conduzido a esses estudos pelas estranhas narrativas antigas que eu costumava ouvir da boca de lavradores idosos, nada letrados; mas hoje penso que oxalá não me tivesse interessado absolutamente por esses assuntos. Posso dizer, sem falsa modéstia, que as disciplinas da antropologia e do folclore não me são de modo algum estranhas. Estudei-as aprofundadamente na universidade, e estou familiarizado com as obras das autoridades mais acatadas, como Tylor, Lubbock, Prazer, Quatrefages, Murray, Osborn, Keith, Boule, G. Elliott Smith, etc. Não é novidade para mim que histórias sobre raças ocultas são tão antigas quanto a própria humanidade. Li as transcrições de cartas suas, e de outras que concordam com elas, no Rutland Herald, e suponho que sei em que pé se encontra no momento a controvérsia.

O que lhe desejo dizer nesta carta é que, em minha opinião, seus oponentes acham-se mais perto da verdade do que o senhor, muito embora a racionalidade pareça estar de seu lado. Aquelas pessoas acham-se mais perto da verdade do que elas próprias imaginam, pois evidentemente guiam-se somente pela teoria, e não podem saber aquilo que eu sei. Se eu soubesse tão pouco sobre o assunto quanto elas sabem, eu me sentiria justificado em pensar como elas. Eu estaria inteiramente do lado do senhor.

Como o senhor pode perceber, estou-me retardando em circunlóquios, provavelmente porque na verdade tenho medo de tocar no assunto que desejo expor. A verdade nua e crua é que possuo provas concretas de que coisas monstruosas realmente vivem nas florestas dos montes altos que ninguém visita. Não vi nenhuma das coisas que, tal como noticiado, estiveram flutuando rio abaixo, mas vi coisas semelhantes, em circunstâncias que não gostaria de descrever. Já vi pegadas, e de algum tempo a esta parte as tenho visto mais perto de minha própria casa (resido na antiga propriedade dos Akeley, ao sul de Townshend, do lado do monte Escuro) do que ouso lhe contar. E entreouvi vozes nas florestas, em certos pontos delas, vozes que nem tentarei descrever por escrito.

Num desses sítios, escutei-as com tamanha intensidade que levei para lá um fonógrafo, equipado com um ditafone e cera virgem, e farei o possível para que o senhor tenha oportunidade de escutar a gravação que fiz. Reproduzi essa gravação para algumas das pessoas mais idosas daqui, e uma das vozes quase as paralisou de medo, em virtude de sua semelhança com certa voz (a voz zumbidora das florestas mencionada por Davenport) sobre a qual falavam suas avós e que elas tentavam imitar. Sei muito bem o que a maioria das pessoas pensa a respeito de um homem que diz “ouvir vozes”… Mas antes que o senhor tire conclusões, peço-lhe que escute a gravação e pergunte a alguns dos moradores mais velhos destes ermos o que pensam a respeito. Se o senhor puder explicá-la em termos normais, muito bem; mas tem de haver alguma coisa por trás disso. Ex nihilo nihil fit, como o senhor sabe.

Meu intuito ao lhe escrever não consiste em iniciar uma polêmica, mas sim passar-lhe informações que, em meu entender, um homem com se us interesses julgará bastante interessantes. O que lhe digo aqui é particular. Publicamente, estou de seu lado, pois certas coisas me ensinam que não convém às pessoas saberem demasiado a respeito desses assuntos. Meus próprios estudos são atualmente de todo privados, e de modo algum pretendo dizer alguma coisa que atraia a atenção das pessoas e as faça visitar os lugares que explorei. É verdade, infelizmente é verdade, que existem criaturas não humanas que nos vigiam constantemente; que mantém espiões entre nós, a colherem informações. Foi de um homem desgraçado que, se era mentalmente são (e acredito que era) foi desses espiões, obtive grande parte de meu conhecimento sobre o assunto. Mais tarde ele veio a suicidar-se, mas tenho motivos para crer que existem outros atualmente.

As coisas vêm de outro planeta e são capazes de viver no espaço interestelar e de voar nele, com asas desajeitadas e potentes, que de alguma forma funcionam no éter, mas que são demasiado ineficientes na atmosfera para ser-lhes de muita valia aqui na Terra. Falarei sobre isso mais tarde, se o senhor não decidir a não me dar ouvidos, julgando-me louco varrido. Esses seres vêm até aqui a fim de obterem metais, em minas que cavam profundamente nas montanhas, e creio que sei de onde eles procedem. Não nos farão mal algum se os deixarmos em paz, mas ninguém saberá dizer o que acontecerá se nos mostrarmos demasiado curiosos com relação a eles. É evidente que um bom exército de homens teria condições de erradicar sua colônia de mineração. É isso que eles receiam que aconteça. No entanto, se tal viesse a suceder, um número maior deles viria de fora… uma quantidade inimaginável. Poderiam conquistar a Terra com toda facilidade, mas até hoje não tentaram isso porque não tiveram necessidade. Preferem deixar as coisas como estão para se pouparem trabalho.

Creio que pretendem livrar-se de mim, devi do ao que descobri. Nas florestas do morro Redondo, a leste daqui, encontrei uma enorme pedra preta, com hieróglifos desconhecidos, meio desgastados pelo tempo. E depois que a trouxe para casa, tudo se tornou diferente. Se julgarem que suspeito de muitas coisas, de duas uma: ou me matarão ou me levarão para o lugar de onde vieram. De vez em quando, levam daqui homens educados, a fim de se manterem informados sobre o estado de coisas no mundo humano.

Com isso, chego a meu segundo objetivo em lhe escrever: instá-lo a abafar o atual debate, ao invés de lhe dar ainda mais publicidade. As pessoas devem ficar longe daquelas montanhas, e por isso, a curiosidade popular não deve ser de modo algum atiçada ainda mais. Só Deus sabe o perigo que já existe, causado por incorporadores e agentes imobiliários que invadem o Vermont no verão, com chusmas de visitantes que correm de um lado para o outro e enchem os morros de bangalôs malfeitos.

Apreciaria continuar a trocar correspondência com o senhor, e farei o possível para lhe mandar aquela gravação e a pedra negra (já tão erodida que fotografias não mostram muita coisa), por via expressa se o senhor assim desejar. Digo “farei o possível” porque acredito que aquelas criaturas de uma maneira ou de outra conseguem influir nas coisas por aqui. Numa fazenda perto da aldeia mora um sujeito furtivo e arrogante, Brown, que, segundo julgo, serve de espião para eles. Pouco a pouco, estão tentando me tirar do mundo, porque eu sei coisas demais a respeito do mundo deles.

É impressionante o modo como conseguem descobrir o que faço. É possível que o senhor nem receba esta carta. Creio que serei obrigado a deixar essa área do país e ir morar com meu filho em San Diego, na Califórnia, se as coisas piorarem, mas não é fácil para uma pessoa abandonar a terra em que nasceu e onde a família viveu durante seis gerações. Além do mais, dificilmente eu teria coragem de vender esta casa a alguém, agora que as criaturas passaram a observá-la de perto. Tenho a impressão de que estão procurando recuperar a pe dra preta e destruir a gravação fonográfica, mas não permitirei que o façam, se puder. Possuo alguns canzarrões, policiais, que sempre os mantém a distância, pois até agora são poucos por aqui, e se locomovem com dificuldade. Tal como disse, suas asas não são de grande valia para vôos curtos em nossa atmosfera. Estou na iminência de decifrar aquela pedra (com grandes sustos e padecimentos), e tendo em vista seu conhecimento do folclore, talvez o senhor pudesse me fornecer achegas suficientes para me ajudar. Suponho que o senhor esteja a par dos tenebrosos mitos a respeito das épocas anteriores à aparição do homem na Terra — os ciclos de Yog-Sothoth e de Cthulhu — aos quais há referências oblíquas no Necronomicon. De certa feita tive acesso a um exemplar dessa obra, e pelo que ouvi dizer o senhor possui um deles, guardado a sete chaves em sua biblioteca na universidade.

Para concluir, Sr. Wilmarth, acredito que, com nossos conhecimentos, possamos ser utilíssimos um para o outro. Não desejo fazer com que o senhor corra qualquer perigo, e julgo ser de meu dever adverti-lo de que manter em sua posse a pedra e a gravação não será muito seguro; no entanto, penso que o senhor achará que vale a pena correr os riscos, por amor à ciência. Irei de carro até Newfane ou Brattleboro a fim de lhe remeter o que o senhor me autorizar, pois nesses lugares os correios são mais seguros. Talvez convenha informar-lhe que atualmente vivo inteiramente sozinho, uma vez que não posso mais ter criados. Não ficam aqui por causa das coisas que tentam aproximar-se da casa de noite, e que mantêm os cães ladrando incessantemente. Fico contente ao pensar que não me enfronhei tanto nisso enquanto minha mulher era viva, pois ela teria ficado louca.

Na esperança de que não o esteja incomodando demasiado, e que o senhor decida entrar em contacto comigo, ao invés de jogar essa carta no lixo, como delírio de louco, subscrevo-me,

Atenciosamente,

Henry W. Akeley

P.S. Estou providenciando cópias adicionais de certas fotografias que tirei, e que, em minha opinião, ajudarão a corroborar alguns pontos a que me referi. As pessoas mais idosas as julgam monstruosamente fiéis à realidade. Eu as enviarei em breve, se o senhor estiver interessado em vê-las.

Seria difícil descrever minha sensação ao ler esse estranho documento pela primeira vez. Segundo todas as regras comuns, eu deveria ter gargalhado ainda mais diante dessas maluquices do que das teorias, muito mais moderadas, que anteriormente me haviam levado ao riso. No entanto, havia no tom daquela carta alguma coisa que me fazia encará-la com paradoxal seriedade. Não que eu acreditasse, por um só momento, na abstrusa raça proveniente das estrelas de que falava meu correspondente; mas o fato foi que, após algumas graves dúvidas iniciais, vim a me persuadir estranhamente da sua sanidade mental e de sua sinceridade. Convenci-me também de que ele havia estado diante de algum fenômeno verdadeiro, ainda que singular e anormal, que ele não era capaz de explicar, salvo daquela maneira fantasiosa. Era forçoso crer que ele havia imaginado tudo aquilo, refleti; por outro lado, eu não podia deixar de pensar que o caso merecia investigação. O homem parecia exageradamente agitado e alarmado com alguma coisa, mas era difícil imaginar que sua aflição fosse inteiramente destituída de motivo. Mostrava-se ele bastante específico e lógico em muitas coisas. E, afinal, sua história se ajustava à perfeição a alguns mitos antigos – até com as mais desvairadas lendas indígenas.

Era bastante possível que ele tivesse realmente escutado vozes perturbadoras nas montanhas e que tivesse, com efeito, encontrado a pedra preta de que falava, apesar das inferências delirantes que tinha feito… inferências provavelmente sugeridas pelo homem que se confessara um espião a serviço dos seres alienígenas e que mais tarde se suicidara. Era fácil deduzir que esse homem devia ter sido louco varrido, mas que, provavelmente, mostrava um comportamento lógico que levara o ingênuo Akeley (já então predisposto a crer nessas coisas, devido a seus estudos do folclore) a acreditar em suas narrativas. Quanto aos fatos mais recentes… tinha-se a impressão, pela impossibilidade de Akeley manter seus criados, que seus vizinhos mais ignorantes estavam tão convencidos quanto ele que sua casa era sitiada por seres fantásticos à noite. O fato de os cães ladrarem não devia levar a conclusões apressadas.

Havia ainda a questão da gravação fonográfica, que nada fazia crer que não tivesse sido obtida da maneira por ele descrita. Aquilo devia ter uma explicação, porém. Talvez fossem ruídos de animais, enganosamente semelhante à linguagem humana, ou mesmo a fala de algum homem que perambulasse às ocultas pela floresta, de noite, um ser humano que estivesse reduzido a um estado pouco superior ao dos animais. Meus pensamentos voltavam então à pedra negra coberta de hieróglifos e a especulações sobre qual seria sua explicação. E o que dizer das fotografias que Akeley estava disposto a me enviar, e que os anciãos do lugar achavam tão terrivelmente convincentes?

Relendo a carta, com sua caligrafia garranchosa, eu senti, mais do que antes, que meus crédulos oponentes talvez estivessem mais perto da verdade do que eu ha via admitido. Afinal de contas, era possível que existissem naquelas montanhas interditas alguns ermitões, solitários e talvez malformados por hereditariedade, muito embora decerto aquela história de monstros das estrelas só pudesse ser fantasia. E se nas montanhas habitava gente esquisita, a presença de corpos estranhos nas caudais não seria inteiramente absurda. Seria excessiva presunção imaginar que tanto as velhas lendas como as notícias recentes tivessem, a fundamentá-las, essa dose de verdade? Ainda assim, mesmo enquanto eu alimentava essas dúvidas, sentia-me envergonhado pelo fato de um desvario tão grande quanto a carta de Henry Akeley tê-las feito nascer em meu espírito.

Por fim, acabei respondendo a carta de Akeley, assumindo um tom de polido interesse e solicitando mais pormenores. Sua resposta me chegou às mãos quase pela volta do correio e continha, com efeito, alguns instantâneos de cenas e objetos que ilustravam o que ele tinha a contar. Ao ver de relance aquelas imagens, quando as tirei do envelope, senti uma curiosa impressão de medo e de proximidade a coisas proibidas. Isto porque, a despeito da vagueza da maioria delas, tinham uma força horrivelmente sugestiva, intensificada pelo fato de serem fotografias verdadeiras – vínculos ópticos reais com o que retratavam e produto de um processo impessoal de comunicação, sem preconceitos, falibilidade ou má fé.

Quanto mais eu olhava aquelas fotografias, mais me convencia de que eu não me enganara ao conceder seriedade a Akeley e à sua história. Evidentemente, aquelas fotos representavam prova concludente de que havia nas montanhas do Vermont alguma coisa que se situava muitíssimo além do campo de nosso conhecimento e nossa convicção ordinária. O pior de tudo era uma pegada… uma fotografia tirada num ponto em que o sol brilhava sobre um pequeno lamaçal, em algum lugar de um planalto deserto. Que não se tratava de nenhuma falsificação grosseira, eu podia perceber num átimo, pois os seixos definidos com nitidez e as hastes de capim presentes no campo de visão proporcionavam uma clara indicação da escala e não deixavam nenhuma possibilidade de um truque, como dupla exposição. Eu chamei a coisa de “pegada”, que significa “vestígio que o pé deixa no solo”; entretanto, aquilo mais se parecia à marca de uma garra. Ainda agora não posso descrevê-la direito, e o melhor que posso fazer é dizer que se assemelhava, horrendamente, à marca de uma pata de caranguejo e que parecia haver certa ambigüidade com relação à sua direção. Não era uma marca muito funda ou recente, mas parecia ser do tamanho de um pé humano mediano. A partir de um bulbo central, pares de pinças serrilhadas se projetavam em direções opostas. Ou seja, sua função era bastante enigmática, se é que o objeto fosse exclusivamente um órgão locomotor.

Outra fotografia (evidentemente se tratava de uma exposição prolongada, em local fortemente sombreado) mostrava a boca de uma caverna, com um rochedo arredondado fechando a abertura. No solo desnudo, à sua frente só se podia discernir uma densa trama de trilhas curiosas, e quando examinei a fotografia com uma lupa tive a certeza inquietante de que as marcas eram semelhantes à da outra foto. Um terceiro instantâneo mostrava um círculo de pedras eretas, como as levantadas pelos druidas, no topo de um morro. Em torno do círculo críptico, a grama estava muito pisada e desgastada, muito embora eu não conseguisse detectar nenhuma marca no chão, nem mesmo com a lupa. Que o local era extremamente inóspito era evidenciado pelo verdadeiro mar de montes desabitados, que formava o fundo e se estendia em direção a um horizonte enevoado.

Entretanto, se a fotografia mais perturbador a era a da “pegada”, a que despertava maior curiosidade era a da grande pedra preta achada nas matas do morro Redondo. Akeley a havia fotografado sobre uma mesa que era, obviamente, seu local de estudo, pois eu podia ver prateleiras de livros e um busto de Milton ao fundo. Como era de esperar, o objeto tinha sido fotografado em posição vertical e apresentava superfície irregularmente curva,  com cerca de palmo e meio de largura por três palmos de altura. No entanto, afirmar qualquer coisa de definitivo a respeito daquela superfície ou sobre a forma geral do objeto como um todo quase ultrapassa o poder da linguagem. Que estranhíssimos princípios geométricos haviam orientado seu talhe (pois eu estava convicto de que a pedra fora talhada artificialmente), era coisa que eu não podia sequer começar a conjecturar; e nunca, até então, eu vira uma coisa que me parecesse tão esquisita e inequivocamente estranha a este nosso planeta. Quanto aos hieróglifos em sua superfície, eu podia perceber pouquíssimos, mas um ou dois que pude discernir me causaram um choque. Evidentemente, podiam ser fraudulentos, pois outras pessoas além de mim já tinham lido o monstruoso e abominável Necronomicon, de Abdul al-Hazred, o árabe louco. No entanto, senti um calafrio ao reconhecer certos ideogramas que o estudo me ensinara a relacionar aos mais enregeladores e blasfemos murmúrios de coisas que haviam tido uma espécie de semi-vida louca antes que se formassem a Terra e os demais planetas interiores do sistema solar.

Das cinco fotografias restantes, três eram de paisagens de pântanos e montes que pareciam mostrar vestígios de ocupação, sub-reptícia, de seres tétricos. Uma outra mostrava uma marca esquisita no solo, bem perto da casa de Akeley; segundo ele dizia, tinha tirado a fotografia de manhã, depois de uma noite em que os cães haviam latido muito mais que de costume. Estava muito desfocada, e na verdade não permitia conclusões seguras; mas assemelhava-se diabolicamente à outra marca fotografada no planalto ermo. A última fotografia era da propriedade de Akeley; um belo sobrado branco, com sótão, com seus cento e poucos anos, atrás de um gramado bem-cuidado e um caminho ladeado de pedras que levava a um portal georgiano entalhado com bom gosto. Vários canzarrões policiais, enormes, estavam sentados junto de um homem de rosto simpático, de barba grisalha e aparada, que julguei ser o próprio Akeley… que fotografara a si mesmo, como se podia inferir pelo cabo propulsor, de bulbo, em sua mão.

Das fotografias, passei à carta, redigida numa caligrafia de letras apertadas. E durante as três horas seguintes estive mergulhado num abismo de indizível horror. As questões que Akeley havia antes tratado por alto eram agora expostas em minudências; apresentava ele longas transcrições de palavras entreouvidas de noite nas florestas, longas descrições de hediondas formas rosadas avistadas ao crepúsculo entre moitas nos morros, bem como uma terrível narrativa cósmica derivada da aplicação de uma profunda e variegada erudição às intermináveis arengas do louco que se declarara espião e que se matara. Vi-me diante de nomes e termos que havia encontrado alhures, ligados às coisas mais horrendas que se podem imaginar – Yuggoth, Grande Cthulhu, Tsathoggua, R’lyeh, Nyarlathotep, Azathoth, Hastur, Yian, Leng, o lago de Hali, Bethmoora, o Signo Amarelo, L’mur-Kathulos, Bran e o Magno Inominado – e fui arrastado, por eras sem nome e por dimensões inconcebíveis, a mundos de existência prístina e remota sobre os quais o delirante autor do Necronomicon só havia feito conjecturas vaguíssimas. Ouvi falar das fontes da vida primeva, e das correntes que de lá haviam brotado; e, finalmente, do minúsculo regato que saía de uma daquelas correntes que se haviam emaranhado com os destinos de nosso próprio mundo.

Minha cabeça rodopiava. E ao passo que antes procurara dar explicações aos fatos, agora comecei a acreditar nas maravilhas mais absurdas e incríveis. O acúmulo de provas vitais era de uma vastidão e uma concludência horripilante; e a atitude serena e científica de Akeley – uma atitude inimaginavelmente distante daquela que se poderia esperar de um demente, um fanático, um histérico ou mesmo do sonhador extravagante – exerceu um efeito tremendo em meu raciocínio e meu julgamento. Quando por fim terminei de ler a carta, pude entender os medos que ele passara a sentir, e estava pronto a fazer qualquer coisa a meu alcance a fim de manter as pessoas afastadas daqueles montes inóspitos e assombrados. Mesmo agora, depois que o tempo embotou as primeiras impressões e me faz quase questionar minha própria experiência e as dúvidas atrozes, há coisas naquela carta de Akeley que eu não gostaria de repetir ou mesmo formular por escrito. Sinto quase satisfação pelo fato de a carta, a gravação e as fotografias não existirem mais… e gostaria, por motivos que em breve esclarecerei, que o novo planeta além de Netuno nunca tivesse sido descoberto.

Com a leitura daquela tarde, terminou para sempre a polêmica que eu vinha mantendo em público sobre o horror do Vermont. Argumentações apresentadas por oponentes permaneciam sem resposta ou eu as descartava com promessas, e por fim a controvérsia minguou e cessou de vez. Passei o fim de maio e o mês de junho em correspondência com Akeley; de vez em quando uma carta se extraviava, de modo que tínhamos de re fazer nosso caminho e realizar um considerável trabalho de cópia. Em síntese, o que estávamos tentando fazer era comparar anotações a respeito de obscuros dados mitológicos para chegarmos a um a correlação mais clara dos horrores do Vermont com o conjunto geral de lendas primitivas.

Desde o início, concluímos que aquelas monstruosidades e o demoníaco Mi-Go himalaio pertenciam a uma única e mesma ordem de pesadelo encarnado. Havia ainda absorventes conjecturas zoológicas, que eu teria apresentado ao professor Dexter, em minha universidade, não fora Akeley haver ordenado, categoricamente, que eu nada dissesse, a qual quer pessoa, a respeito daquele assunto. Se dou mostras de desobedecer a essa determinação agora, é apenas por pensar que, nesta altura dos acontecimentos, uma advertência com relação àquelas distantes montanhas do Vermont (e sobre aqueles picos dos Himalaias, onde a cada dia que passa um maior número de ousados exploradores se aventura) é mais propício à segurança pública do que seria o silêncio. Uma atividade específica que estávamos realizando era o deciframento dos hieróglifos gravados naquela infame pedra negra — uma decodificação que bem nos poderia conduzir a segredos mais profundos e mais assombrosos que qualquer outro jamais detectado pelo homem.

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