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Fanfic: Indiana Jones e as Relíquias de D. Sebastião – Capítulo 11

Indiana Jones e as Relíquias de D. Sebastião

Goldfield

Capítulo 11

No reino do Preste João.

Dor, fraqueza… Febre… Visão turva, lampejos de visão e espasmos de consciência…

Ele era conduzido em cima de uma maca… Conseguiu enxergar Luzia… Linda como sempre, mas parecia tão preocupada…

Eram guiados por um homem de roxo… O bispo do Preste João! Mas por onde seguiam? Seria uma caverna?

Não… Um labirinto de cavernas! Passagens tortuosas, desvios, bifurcações…

Ia falar algo para revelar que recuperara os sentidos, mas quando acabara de pensar em fazer isso, a cabeça tornou novamente a pesar-lhe imensamente, e seus olhos foram novamente selados…

Indy acordou num sobressalto.

Sentou-se, erguendo o tronco, sobre o que parecia ser uma cama. E bem confortável, era de se convir: um colchão extremamente macio, coberto por um lençol de tecido fino e incrivelmente sedoso, cor azul. Havia também dois travesseiros ornamentados, em sua costura, com imagens religiosas e de guerreiros etíopes. Foi analisando essas figuras que o arqueólogo, um pouco zonzo, porém aliviado da febre e da imobilidade trazidas por sua misteriosa doença, concluiu para onde fora levado… Seria mesmo verdade?

Levantou-se da cama, observando o quarto: paredes de barro, sendo que um dos lados do cômodo parecia ter sido talhado diretamente numa rocha… Havia peças de tapeçaria por quase toda parte, algumas delas impressionando pela riqueza de detalhes. Sobre uma mesinha próxima ao leito, encontrou uma bacia de ouro maciço contendo água e uma toalha, uma jarra de prata com algum tipo de suco de fruta e, por último, seu inseparável chapéu de aventuras. Aliviado por encontrá-lo, Indy colocou-o de volta na cabeça.

Caminhou então até algumas janelas de um dos lados do recinto. Eram cobertas por placas de madeira contendo pequenos orifícios em forma de losango, pelos quais penetravam fachos de luz solar fragmentados . Lá fora o céu era azul, isso Jones conseguiu perceber, porém não pôde distinguir mais nada na paisagem exterior, já que era difícil enxergar algo em panorama através daquelas superfícies. Voltou-se para trás, e ao mesmo tempo uma porta do lado oposto do quarto foi aberta, Luzia Pessoa adentrando-o, um sorriso brotando em sua face ao ver o amigo de pé.

–       Que bom que já está melhor, deu-nos muito trabalho, sabia? – exclamou a portuguesa.

–       Onde estamos, e como vim parar aqui?

–       Você desmaiou logo que os fascistas nos surpreenderam no povoado, e o bispo Samuel Davi aceitou conduzi-los até o Preste João se poupassem nossas vidas. O comandante aceitou, mas enquanto cruzávamos as montanhas junto com os italianos, acabamos surpreendidos por salteadores. No meio da confusão, eu e Maputo, que carregávamos você numa maca, fomos guiados pelo bispo para dentro de um labirinto de cavernas que compunha o verdadeiro caminho para o reino do Preste. Conseguimos assim despistar os inimigos, e aqui estamos já faz um dia!

–       Sendo assim, temos que nos reunir com o Preste para podermos levar as relíquias embora o quanto antes!

–       Não senhor! – protestou a moça, levando as mãos à cintura. – Primeiro os médicos daqui vão examiná-lo para descobrir o que você tem! Não poderemos continuar sem que você seja tratado!

–       Ora, eu não tenho nada…

Logo que disse isso, Indy deu alguns passos de costas para se apoiar na borda de uma das janelas, mas perdeu o equilíbrio e, se não houvesse sido amparado pela parede, teria caído sentado.

–       Deixe de ser teimoso! – Luzia ficava indignada com o comportamento do professor. – Enquanto você não for ao menos diagnosticado e medicado, não deixaremos o reino! De acordo com Samuel, somos hóspedes de honra do Preste e podemos ficar aqui o tempo que for necessário!

Jones riu de leve. Ela se preocupava mesmo consigo! Pensar nisso o reconfortava, e assim já pôde se sentir um pouco mais disposto. Ajeitando a roupa, o aventureiro perguntou à jovem:

–       Será que podemos sair para dar uma volta?

–       Você se sente bem o bastante para isso?

–       Ora, meu corpo não está desmanchando diante dos seus olhos, está? Eu consigo andar por conta própria. Além do mais, nós estamos nos domínios do lendário Preste João! Falam sobre este lugar há séculos, porém ninguém pôde vir comprovar se o que descreviam era real ou não! Acha mesmo que eu vou ficar o tempo todo aqui dentro deste quarto?

Era um forte argumento, ainda mais vindo de um arqueólogo. Luzia abriu a porta, esperando que Indy se aproximasse para junto com ele deixar o local. Do lado de fora, desceram por uma longa escada em espiral, toda feita de pedra. No caminho, o norte-americano perguntou à companheira:

–       Cadê o Maputo?

–       No aposento que lhe foi preparado, ainda deve estar dormindo… Acredito que logo mais ele se juntará a nós!

O trajeto terminou numa outra porta, e assim que a atravessaram, os dois ganharam um lugar ao ar livre… Bem, não era um lugar qualquer ao ar livre, como rapidamente Indy percebeu…

O que existia logo à frente se assemelhava à rua de uma cidade, mas não de modo convencional. Encontravam-se numa pequena plataforma rochosa natural, à beira de uma fenda que aparentava ter muitos metros de profundidade, não sendo possível enxergar sua extremidade inferior. Sobre ela fora construída uma longa passarela de madeira, que servia como via, ligando as duas bordas do buraco e assim ramificando-se em outras pequenas pontes e travessias, de acordo com a distância entre os dois lados, que variava. E, em cada um deles, via-se várias construções esculpidas na própria montanha, com portas, janelas, colunas e até alguns telhados. Era comum algumas daquelas habitações terem de dois a três andares, interligados por escadas em seus interiores. Por toda a extensão daquela estrutura vagavam muitas pessoas, ocupadas em diversas atividades e afazeres, todas súditas do Preste João.

–       Incrível, simplesmente fantástico! – exclamou Indy, maravilhado por aquele cenário. – A cidade foi toda construída num vão da cordilheira! Por isso é tão difícil de ser encontrada!

Passaram a percorrer a passarela, tão sólida quanto as rochas que a circundavam. Havia beirais para que apoiassem as mãos, reduzindo o risco de uma queda na infindável fenda. Seguiram até uma construção próxima, diante da qual enxergaram uma figura conhecida, vestes roxas… Sim, o bispo Samuel Davi, que parecia aguardá-los já há algum tempo.

–       Bom dia, com as bênçãos de Deus! – o sacerdote saudou-os. – Que bom já estarem de pé, assim teremos mais tempo! Há inúmeras revelações e explicações a serem feitas, para a compreensão da profecia!

–       Fico lisonjeada pelo tratamento que estamos recebendo, e sei que preciso contribuir para o cumprimento da profecia, porém não se esqueça de que meu amigo ainda está doente e precisa ser tratado! – falou Luzia.

–       Deixe isso para depois, querida… – recomendou Jones, um tanto sem graça. – Bispo Samuel, quando poderemos ver o Preste João?

–       No banquete de hoje à noite – respondeu o clérigo, mexendo em seu medalhão com uma das mãos. – Vocês são os convidados especiais para comerem na presença de nosso venerado rei-sacerdote, mas antes precisarão visitar alguns outros de seus estimados servos!

Samuel pôs-se a caminhar, os dois visitantes do reino o acompanhando. Entraram pela porta do local logo adiante, ganhando uma espécie de pátio interno. Nele, Indy e Luzia puderam observar uma enorme variedade de pessoas: alguns outros sacerdotes, vestidos praticamente do mesmo modo que o bispo, com suas túnicas roxas e medalhões dourados, outros indivíduos de trajes vermelhos, comerciantes, que cuidavam de barracas e manuseavam moedas de ouro e prata, e um outro grupo, a maioria, entre homens e mulheres, os primeiros andando quase nus, usando apenas calções e peles de carneiro presas às costas, e as segundas trajando saias e vestidos bastante simples, mas que realçavam as bonitas formas de seus corpos, todos trabalhando em diversas ocupações, desde carpinteiros a ferreiros.

Era assim possível esboçar uma provável hierarquia social da sociedade do Preste: primeiro os sacerdotes, depois os comerciantes e então o resto do povo. Havia também, todavia, dois grupos que pareciam não se encaixar em nenhuma dessas camadas. Primeiramente, os pigmeus, presentes nas lendas sobre aquele reino. Com cerca de um metro de altura, assemelhavam-se a anões, mas tinham um desenvolvimento corporal mais condizente com o de uma pessoa normal, reforçando seu aspecto de humanos em miniatura. Um deles se aproximou, conforme o bispo guiava os estrangeiros, e abraçou com força as pernas de Luzia, impedindo-a de continuar andando. Olhando para baixo, a portuguesa se deparou com os olhinhos brilhantes do pequeno homem, que parecia disposto a nunca mais soltá-la!

–       Parece que você ganhou um admirador por aqui também! – constatou Jones, sorrindo.

Rindo admirada, a moça não sabia ao certo como lidar com a situação, até que o clérigo trocou algumas enérgicas palavras com o pigmeu na língua local, fazendo-o se desvencilhar da jovem aos resmungos, e distanciou-se caminhando de forma engraçada. Uma experiência no mínimo curiosa, além de fantástica. Mas, em meio a tudo aquilo que viam, a presença daqueles seres tornava-se quase que natural. O trio retomou o trajeto, Samuel explicando:

–       Esses pequenos endiabrados vivem nesta região desde sempre… Apesar de um tanto travessos, também são súditos fiéis do divino Preste João!

Fitando alguns dos pigmeus que trabalhavam, Indy percebeu que se encarregavam principalmente de atividades auxiliares às demais, atuando como assistentes ou criados. O outro grupo que parecia não se encaixar nos três principais eram composto por anciãos aparentando ser extremamente velhos, com cabelos muito brancos e barbas enormes, algumas até chegando aos seus pés. Vestiam túnicas brancas sujas, alguns portando cajados, e eram vistos aqui e ali pregando à população ou transmitindo ensinamentos às crianças.

–       Quem são esses idosos? – desejou saber o arqueólogo, para o qual aqueles homens lhe eram familiares, subindo por uma escada que o bispo indicara.

–       Existem sacerdotes entre nós que escolheram o caminho da propagação da fé, indo evangelizar regiões distantes daqui, voltando depois de anos de ministério – explicou Samuel. – São os mais sábios entre nós, por isso eles próprios criaram meios de viverem por muito tempo, para que tal sabedoria não se perca. Alguns deles têm séculos de idade, e foram conselheiros, ao longo de gerações, de vários reis-sacerdotes donos do título de Preste João!

–       Séculos de idade? – espantou-se Jones. – Mas como podem viver tanto? Qual a explicação?

–       Os métodos que empregam para prolongarem sua existência são um segredo absoluto, porém eu e alguns bispos já ouvimos falar de um deles… – revelou o religioso em tom confidencial. – Eles vivem de uma dieta alimentar que consiste apenas em comer carne de serpente!

Indiana teve vontade de cuspir. Cobras! Por que tinha que ser cobras? Ele preferia a mortalidade e todos os seus infortúnios a ter de ingerir por toda a vida aqueles répteis asquerosos! Entretanto, saber a respeito daqueles anciãos era muito interessante. Devia ser por conta de seu trabalho de evangelização que muitas das informações sobre o reino do Preste João tenham sido propagadas na Europa medieval…

Passaram por mais passagens, escadas e portas, até chegarem a um ambiente bastante amplo. Logo concluíram se tratar de uma suntuosa igreja subterrânea. Avançaram pelo corredor central, Indy e Luzia admirando toda aquela grandeza. Quase tudo no templo era feito de ouro e pedras preciosas. Até as imagens dos santos eram incrustadas de jóias, as pupilas das estátuas sendo compostas de esmeraldas e safiras. Os candelabros reluzentes, os instrumentos de celebração valiosíssimos, os bancos de madeira nobre, o púlpito rodeado de esculturas de anjos e querubins… Tudo ali demonstrava incomparável riqueza. Nas paredes e no teto havia belas e detalhadas pinturas mostrando diferentes episódios bíblicos, e numa delas estava retratado um idoso branco de longa barba, auréola em torno da cabeça, pregando o cristianismo para um grupo de etíopes devotos. Jones logo deduziu se tratar do apóstolo lendário que teria evangelizado a região.

Chegaram ao altar, de frente para um grande crucifixo. De cada lado deste havia uma porta que levava aos fundos do santuário. O bispo guiou-os pela entrada da direita, porém a da esquerda intrigou bastante Indy: parecia estar firmemente selada, e junto dela existia uma espécie de mecanismo envolvendo engrenagens metálicas e um fino cilindro vertical. Gravou aquele local em sua mente, e continuou a seguir os passos de Samuel Davi…

Os dois viajantes pensaram que em seguida encontrariam uma sacristia, no entanto chegaram a um lugar bem diferente: abarrotado de livros, esboços, pergaminhos e instrumentos de cálculo, perguntaram-se se não teriam encontrado um ateliê perdido de Leonardo da Vinci. Existiam ali até um telescópio desmontado e dicionários de diversas línguas, o que explicava o domínio do inglês por parte da população dali. Em meio a tudo aquilo, junto a uma mesa, um idoso de túnica branca desgastada e grande barba folheava um grosso exemplar que era certamente originário da Idade Média, as páginas repletas de letras ornamentadas e iluminuras. O bispo chamou-o através do dialeto do reino, fazendo com que ele se virasse para os recém-chegados. Indiana estremeceu ao reconhecê-lo de imediato: era o mesmo misterioso ancião que ele vira em duas ocasiões ao longo da viagem até a Etiópia, sempre desaparecendo sem deixar rastro!

–       Você… – oscilou o arqueólogo. – Você é…

–       Finalmente chegou aqui, nobre explorador! – sorriu o velho, fechando o livro e colocando-o sobre o móvel. – Você e sua acompanhante mostraram-se dignos de chegar ao reino do Preste João!

Agora tudo se encaixava… Desde o Egito aquele sacerdote vinha seguindo os passos de Indy e Luzia! A aparição dele em Assuã, depois no primeiro vilarejo etíope… Provavelmente havia inclusive sido ele quem roubara os camelos do grupo, para testar até que ponto persistiriam! Um dos próprios súditos do Preste acompanhara o tempo todo a expedição à procura do reino!

–       Mesmo com as maiores provações, vocês foram capazes de agora pisar neste solo sagrado! A profecia se cumprirá, o ciclo será completo!

Caminhou então até um globo terrestre que ali havia, suporte feito de ouro, a forma dos continentes ainda remetendo ao início das Grandes Navegações. Girou-o de leve, e enquanto fitava o movimento da esfera, disse, como que hipnotizado por ela:

–       Tudo no universo compõe um ciclo… Desde as coisas mais simples às mais complexas… Há séculos eu venho estudando os diferentes ciclos que nos rodeiam. E concluí que o tempo também compõe um ciclo!

Esticou então uma das mãos, interrompendo o girar do planeta em miniatura. Andou até uma estante próxima, apanhando alguns papéis amarelados. Mostrou-os aos estrangeiros: neles estavam desenhadas diversas figuras circulares, decompostas em vários ângulos e cálculos. O idoso simplificou tudo:

–       Tudo no universo caminha para realizar uma volta completa, retornando ao local de início! Todas as coisas executam um movimento de trezentos e sessenta graus! É assim que nós medimos o tempo! Se cada dia corresponde a um grau, um ano possui pouco mais de trezentos e sessenta dias, ou seja, é um ciclo completo! Em maior escala, uma era, portanto, tem trezentos e sessenta anos!

O raciocínio do estudioso fazia muito sentido. Jones, principalmente, estava deveras interessado pela explicação, que teve continuidade:

–       Quando o santo rei dos lusitanos, D. Sebastião, perdeu a vida nas areias de Alcácer-Quibir, uma era terminou e outra teve início. De acordo com o calendário europeu, isso ocorreu no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1578. Nós, encontrando os despojos do rei, os trouxemos até este reino para que simbolizassem a nova era que nascia, um período que marcaria o declínio da nação lusitana e a preparação para o retorno ao seu apogeu. Portugal só poderia voltar a ser um grande império quando o ciclo se encerrasse, e isso seria marcado pelo retorno das relíquias de D. Sebastião à terra natal!

Agora Indy e Luzia compreendiam o motivo de, segundo o documento de Gaspar Almeida consultado em Lisboa, os abexins terem fugido à noite com as relíquias do rei depois de encontrarem a expedição portuguesa: o povo do Preste João acreditava que ainda não era o momento certo de D. Sebastião voltar! Isso só poderia ocorrer depois que se passasse o tempo necessário para o fechamento do ciclo!

Foi quando fizeram as contas… Segundo o sacerdote, uma era terminava depois de transcorridos trezentos e sessenta anos… 1578… 1938… Trezentos e sessenta anos exatos! Chegara o momento de transportar as relíquias de volta a Portugal, e eles, mais especificamente Luzia, seriam incumbidos disso! Era essa a profecia, e por isso requeria tantos testes e preparação! Quem diria… Com o mundo à beira da eclosão de uma guerra, uma antiga tradição de um povo místico oculto nas montanhas da Etiópia seria finalmente consolidada!

–       Agora compreendemos, o ciclo está mesmo a um passo de se completar! – afirmou a filha de Fernando Pessoa, olhos brilhando. – E nós temos um papel vital nisso tudo!

–       Quando poderemos levar as relíquias? – indagou o doutor.

–       Logo depois do banquete com o Preste! – replicou Samuel, calado há um certo tempo. – Haverá uma grande cerimônia para marcar esse acontecimento, os sagrados festejos durarão dias!

Agora ficava evidente por completo o nobre e importante caráter daquela missão. Tudo conspirara para que ela fosse concluída, e eles estavam mesmo a um passo de conseguirem! Os despojos do rei oculto seriam reconduzidos para seu antigo lar… Nada mais parecia agora capaz de impedir isso.

As horas passaram, e veio o entardecer.

Indy e Luzia foram instruídos por Samuel a começarem a se arrumar para o banquete que seria dado pelo Preste logo à noite. Maputo ainda não havia dado as caras, porém, segundo o clérigo, ele estava muito cansado e decidira passar o dia todo dormindo. A portuguesa estava muito zangada com o norte-americano: ele ainda se recusava a ir ver os médicos do reino. Naquele momento, os dois caminhavam por um corredor até o local onde, de acordo com o bispo, poderiam banhar-se, a moça ainda discutindo com o arqueólogo:

–       Até quando vai continuar com isso?

–       Eu já te disse que estou bem…

–       Ah, é? Você tinha dito a mesma coisa depois de ter se recuperado pela primeira vez, e piorou de novo! Precisamos ao menos descobrir o que é, pode ser grave!

–       Luzia, nós estamos a um passo de recuperar as relíquias! – falou Jones, parando e colocando as mãos nos ombros da jovem. – Nada pode nos atrapalhar agora! Caso haja algum contratempo, os sacerdotes do Preste podem interpretar como uma quebra na profecia, aí tudo estará perdido!

–       Mas sua saúde é mais importante! Não pode querer se sacrificar assim!

–       Eu agüentarei até irmos embora daqui… Até lá, confie em mim!

Os dois se contemplaram nos olhos por alguns instantes, cada um exprimindo diferentes sentimentos sem precisar empregar palavras: Luzia transparecia uma imensa preocupação com Indy, ela se afeiçoava a ele cada vez mais. Ele parecia muito mais obcecado pelas relíquias do que ela, que teria muito mais motivos para isso! Já o professor parecia pedir maior confiança da parte dela, queria que ela deixasse seus temores de lado ao menos temporariamente, e acreditasse que poderia dar certo fazer as coisas do jeito dele… Se bem que nem ele mesmo acreditava nisso às vezes!

–       Espero que não esteja cavando sua própria sepultura, doutor Jones… – suspirou Luzia.

–       Eu não estou.

Tornaram a andar, até chegarem a uma bifurcação. De acordo com o que Samuel dissera, o caminho da esquerda levava à “casa de banho” feminina, e o da direita, à masculina, ambas preparadas especialmente para os hóspedes. Poderiam banhar-se à vontade, e antes que terminassem, alguns criados pigmeus lhes levariam as roupas que vestiriam para a cerimônia. Assim se separaram, prontos para se lavar, e de quebra quem sabe também relaxar um pouco…

A higiene pessoal com certeza era um hábito muito valorizado no reino do Preste João. O ato de tomar banho ali revelava isso: cada “casa de banho” era um verdadeiro termas. Havia piscinas contendo água em diferentes temperaturas, isoladas entre si para garantir a privacidade dos usuários. Além de sabão, estavam à disposição frascos contendo os mais diversos tipos de perfumes, alguns com aromas bem exóticos, trazidos por caravanas vindas do outro lado do mundo. No teto e paredes, pinturas representando o cotidiano daquela terra e as pessoas que nela viviam. Indy e Luzia passaram bons minutos se banhando, o que contribuiu para restaurar suas energias.

Logo que terminaram, enxugaram-se com macias e suaves toalhas, que, de acordo com o bispo Samuel, eram feitas de um tecido fabricado a partir dos casulos de uma espécie de salamandra existente somente naquelas montanhas. Tal processo era realizado numa oficina especial do reino, onde os alvéolos desses animais eram expostos ao fogo, resultando na excelente fibra que compunha praticamente todas as peças de vestuário utilizadas nos domínios do Preste. Segundo se dizia, as roupas desse tipo eram atiradas de volta ao fogo para serem limpas, já que a água não era suficiente para lavá-las, e que elas eram retiradas intactas das chamas logo depois. Os visitantes não haviam testemunhado tal processo, porém, depois de terem presenciado tantas coisas fantásticas ali, não havia razão para duvidar…

Jones concluiu seu banho, amarrando uma das toalhas na cintura. Numa bancada próxima das piscinas, os pigmeus haviam deixado os trajes para o banquete: uma bela túnica azul com fitas brancas, e sandálias de couro. Seria um alívio vestir algo limpo depois de tanto tempo com as mesmas roupas, elas estavam até criando piolhos! O arqueólogo ia começar a se trocar, quando ouviu um grito. Era Luzia:

–       Indy!

Apesar da distância, o aventureiro notou um quê de urgência na voz da companheira. Ainda envolto apenas pela toalha, correu até a casa de banho feminina, temendo que a moça estivesse em apuros. Bem, ela na verdade estava mesmo, mas não da maneira que Jones pensara…

Os criados pigmeus haviam feito uma de suas travessuras: ao invés de levarem a Luzia as vestimentas para a cerimônia, deram um sumiço em suas roupas, deixando no lugar os trajes sujos de Indiana! Para não ficar nua, a portuguesa acabara por colocá-los no corpo, e a imagem era simplesmente hilária: a camisa, jaqueta e calça eram muito grandes para ela, e por isso ficou parecendo uma criança que cismara em experimentar as vestes de um adulto! O chapéu também não se ajustava bem à sua cabeça, caindo sobre seu rosto e tampando tudo acima do nariz.

–       Olha, se eu soubesse que você queria roupas iguais às minhas, eu teria pedido para algum alfaiate daqui fazer algo do seu tamanho… – brincou Indy.

–       Muito engraçado! – zangou-se Luzia, cruzando os braços. – Acho que os serviçais me pregaram uma peça… Você pode verificar se as minhas roupas estão na outra sala?

–       Está bem!

O norte-americano virou-se para sair, segurando a toalha que lhe envolvia, quando Pessoa notou algo que a deixou muito assustada. Deteve o amigo sem pensar duas vezes:

–       Indy!

–       O que foi?

–       O que são essas manchas nas suas costas?

De fato, não só as costas, mas várias partes do corpo de Jones estavam cobertas por pequenas marcas negras. A doença se manifestava agora com maior clareza. Tanto ele quanto ela ficaram sem reação, a jovem olhando desesperada para Indiana enquanto este se examinava surpreso e estarrecido. Afinal de contas, que praga era aquela? Por que aquele empecilho justo no momento em que estavam mais perto de triunfar?

–       Indy, você… – começou a falar a moça, quando foi interrompida.

A porta da casa de banho se abriu, surgindo o bispo Samuel. Parecia muito apressado e agitado, nem notando o aspecto físico preocupante do doutor. Apenas exclamou, antes de se retirar rapidamente:

–       Terminem de se arrumar, meus caros, o santo banquete do rei-sacerdote vai começar dentro de instantes!

A dupla assimilou a frase, trocando um olhar. Pelas pupilas molhadas da portuguesa, Jones compreendeu que ela não queria que ele desse mais nenhum passo que não tivesse como meta o tratamento de sua moléstia. Infelizmente Indy teria de desapontá-la novamente. Achava que poderia agüentar ao menos mais uma noite. Depois que eles estivessem com as relíquias, aceitaria até passar um mês inteiro numa barraca hospitalar. Mas não antes daquele banquete… Não antes do fim da jornada!

–       Eu vou pegar suas roupas… – murmurou, saindo.

Luzia permaneceu imóvel durante alguns instantes, até que tirou o chapéu da cabeça… Deixando que caísse no chão.

Glossário – Capítulo 11:

Leonardo da Vinci: Um dos grandes gênios do Renascimento italiano, atuou nos campos da pintura, escultura, engenharia, física e arquitetura, para citar alguns. Considerado uma das maiores mentes da História, sua obra mais conhecida é a tela “Mona Lisa”, do início do século XVI.

Iluminura: Desenho decorativo freqüente em páginas de livros medievais, geralmente com temas religiosos.

Termas: Do latim Therma, estabelecimentos da Roma Antiga onde eram realizados os banhos públicos. Hoje, a designação se refere a estâncias turísticas ou medicinais envolvendo terapia com banhos e imersões.

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5 Respostas

  1. Oxi!!! E vão saindo assim de fininho, é? (rs) Cadê o manual, a Vivi?

    =**

  2. Hahaha… Pô, jornalista não deixa passar nada mesmo!

    Júlia, nessa segunda-feira não teve manual por motivo de força maior. A Vi teve que viajar e não pôde levar o notebook dela. Mas semana que vem volta ao normal. =]

    Qualquer coisa, acompanhe o nosso twitter ou acesse o nosso fórum (links na direita). A gente costuma avisar nesses cantos quando acontece algo.

    Beijão

  3. Pois eu acho que vocês meninos deveriam ter mostrado que aprenderam alguma coisa e preparado uma receitinha legal, hihihihi.

    =*

  4. Menina Veras, acredito que receita de miojo ou ovo frito queimado não podem ser postados nessa seção, rsrs

  5. nem passou pela minha cabeça q nao teve manual ,
    poxa veras vc me surpriendeu RSRS

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