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Fanfic: Indiana Jones e as Relíquias de D. Sebastião – Capítulo 12

Indiana Jones e as Relíquias de D. Sebastião

Goldfield

Capítulo 12

A Câmara das Relíquias.

Indy e Luzia seguiam agora por uma série de corredores e escadarias iluminados por tochas rumo ao salão de banquetes subterrâneo do Preste João, descendo cada vez mais na direção do coração da montanha. Não haviam trocado mais nenhuma palavra desde as casas de banho. A portuguesa sentia que o companheiro podia cair desmaiado, ou morto, a qualquer instante, e procurava estar pronta para segurá-lo a cada novo passo. Apesar da situação desesperadora do arqueólogo e de sua relutância em voltar atrás, a jovem ainda possuía uma ínfima esperança de que tudo desse certo…

Enquanto Jones vestia a túnica azul que lhe fora fornecida, o traje cerimonial de Pessoa consistia num belo vestido branco de detalhes verdes, calçando sandálias assim como o amigo. Suas mãos e braços estavam ornados de jóias, o cabelo fora preso num coque e seu rosto havia sido cuidadosamente maquiado por algumas damas do reino, realçando ainda mais a incrível beleza da qual a moça era dotada.

Depois de caminharem por mais algum tempo, pararam diante de uma grande porta dupla de madeira, havendo ao lado dela um etíope de túnica roxa e medalhão no pescoço, o que indicava ser ele um sacerdote. Curvando-se numa solene saudação aos recém-chegados, acionou uma discreta alavanca na parede, fazendo com que a estrutura que fechava o caminho se abrisse de forma lenta.

A dupla agradeceu ao clérigo com gestos e seguiu adiante, apenas para encontrar, depois de alguns passos, uma porta idêntica à anterior, também guardada por um religioso. A ação se repetiu: ele moveu uma alavanca e o trajeto foi liberado, Indy e Luzia avançando desconfiados para verem em seguida… Outra porta fechada, com outro sacerdote!

No total, passaram por treze entradas, uma se fechando atrás deles assim que outra se abria à frente, e treze eclesiásticos, os “porteiros-clérigos” que controlavam dia e noite o acesso ao Preste João. Mais um dos curiosos costumes daquele reino fantástico.

Assim que atravessaram a última porta, ganharam o imenso e luxuoso salão de banquetes do lendário rei. O que viram ali era fabuloso, magnífico. Épico. Tudo, das paredes ao teto, dos objetos maiores aos menores, era composto de metais e pedras preciosos. A mesa de jantar era retangular, repleta de entalhes com esmeraldas, safiras e ametistas. Possuía aproximadamente trinta metros de comprimento por quatro de largura. Coberta por uma toalha branca de impecável tecido feito do casulo de salamandra, continha pratos, travessas, copos e talheres de ouro e prata. Numa das extremidades do móvel havia um trono todo cravado de jóias, onde estava acomodado o Preste João. À sua direita, ao longo da mesa, encontravam-se sentados doze arcebispos e vinte bispos. À esquerda, alguns dos comerciantes do reino. Foi entre eles que se inseriram Indy e Luzia, sentindo-se um tanto deslocados. Estavam a uma distância média do Preste, e alojados bem de frente para Samuel Davi.

–       Sejam bem-vindos, meus nobres amigos! – saudou ele.

O rei-sacerdote era uma figura interessante. Alto, careca, musculoso. O único em seus domínios que não vestia túnica de uma só cor: a sua possuía mangas, listras e contornos de diversos tons. Também usava anéis, brincos, braceletes e pulseiras de ouro puro e inúmeras pedras de grande valor. Tinha, preso ao pescoço, um medalhão idêntico aos de seus clérigos. Por fim, segurava com a mão direita um fino cetro dourado de quase dois metros de altura, que possuía na extremidade superior um pequeno crucifixo.

–       Nosso santo Preste é casado com as três mais graciosas mulheres do reino – explicou Samuel. – Porém, ele dorme com elas apenas quatro vezes ao ano, somente com o intuito de gerar filhos, para assim resistir à tentação da luxúria.

–       Quantos filhos o Preste tem? – perguntou Luzia.

–       Nosso atual rei-sacerdote fez com que suas amáveis esposas concebessem doze crianças: seis meninos e seis meninas! O primogênito masculino será o próximo a receber o título de Preste João!

Mesmo estando naquele ambiente tão rico e curioso, Indiana não pronunciara palavra alguma desde que entrara. Seu rosto não demonstrava sequer admiração. Devia estar totalmente dominado pela doença, e continuava esforçando-se para disfarçar sua condição. Por que ele insistia tanto nisso? Luzia não conseguia, nem podia, se conformar!

Súbito, um dos arcebispos começou a badalar um pequeno sino que trazia consigo. Era o sinal de que o Preste ia falar. Todos na mesa se calaram, voltando os olhos para o governante em seu trono. Este ficou de pé, enquanto Samuel Davi, também se levantando, anunciava:

–       Vai falar Baltasar XVII, o Preste João, sagrado rei, campeão da fé e da justiça!

Voltou então a sentar-se, o rei-sacerdote baixando a cabeça numa rápida prece silenciosa, dizendo logo depois:

–       Na graça de Deus e de Cristo, estamos aqui hoje reunidos celebrando o fim de uma era. O fechamento de um ciclo. O cumprimento de uma importante profecia. Os restos mortais do rei lusitano D. Sebastião, mártir da fé, serão finalmente reconduzidos de volta para sua terra!

A portuguesa observava os semblantes dos sacerdotes. Pareciam bastante emocionados por ouvirem seu líder falar. Na verdade, ela atentara para o fato de que o rei, um presbítero, ocupava uma posição acima de todos os arcebispos e bispos. Essa disposição de cargos mostrava o valor que aquele povo dava à humildade, à simplicidade de alma, mesmo vivendo em meio a tanta riqueza e luxo. O Preste continuou:

–       Quando uma de nossas caravanas encontrou as relíquias do rei, trouxeram-nas até nosso reino para que pudéssemos zelar por elas até que se passasse o tempo necessário antes do retorno. Por séculos fomos abençoados por Deus com a presença de tais despojos, pois operaram curas milagrosas entre nós. Doentes sem esperanças de se recuperarem acabaram se recobrando totalmente graças ao poder divino que passou a se manifestar através do corpo de um monarca cristão que morreu em trágicas e prematuras circunstâncias no deserto marroquino. E agora esse tesouro sagrado, essas relíquias abençoadas, serão transportadas para Portugal por uma descendente dos destemidos exploradores lusitanos que nesta terra estiveram no passado!

Luzia olhou para Indy. Ele parecia lutar com todas as forças para manter os olhos abertos. Sabia que o professor estava zonzo, que a cabeça dele devia estar parecendo pesar uma tonelada sobre o pescoço, a febre e a fraqueza retornando com violência. Teve vontade de gritar, interromper o discurso do Preste João e encerrar logo aquela cerimônia para que o amigo fosse tratado… Mas aparentava já ser muito tarde!

Durante o momento em que a moça se distraíra, o rei-sacerdote dera a ordem para que o banquete fosse servido. Um dos arcebispos proferiu uma breve oração de agradecimento, e em seguida alguns criados pigmeus apareceram trazendo tigelas com queijo, arroz, mel, espigas de milho, pães e frutas variadas. Não havia carne: eles a evitavam sempre que podiam. Para beber, jarras com vinho, leite e água fresca. Todos começaram a se servir com vontade, estavam famintos: o jantar era a única refeição diária naquela terra. Luzia, porém, apesar de também não comer desde o dia anterior, ficou alheia ao alimento. Sua única preocupação era Jones, que, num esforço tremendo, voltou-se para a jovem e disse:

–       Você tinha razão…

E caiu da cadeira, desmaiando sobre o chão. Pessoa abaixou-se imediatamente, amparando a cabeça do norte-americano. Os demais presentes levaram alguns segundos para notar o ocorrido, parando então de comer e cercando os dois aventureiros. Não agradou à portuguesa aquela aglomeração de indivíduos, pois Indy precisava de ar. Por sorte, entre os comerciantes que haviam vindo para o banquete estavam os médicos do reino, que abriram caminho entre os compatriotas e puseram-se a examinar o arqueólogo. Luzia levantou-se, deixando os especialistas trabalharem.

Atordoada, ela lembrou-se mais uma vez de Maputo. Onde será que poderia estar, para ainda não ter aparecido? O auxílio dele seria importante naquele momento! A túnica que Indiana vestia foi rasgada para que ele pudesse ser melhor examinado, e os médios balançaram negativamente a cabeça: além de seu corpo estar ensopado de suor, havia manchas negras por toda sua pele… Um deles levantou-se e afirmou, livre de dúvidas:

–       Ele está com tifo!

Tifo… Então era isso, tifo! A doença que, segundo uma das teorias, havia sido responsável pela morte de Alexandre, o Grande. Era no mínimo irônico: um estudante dos vestígios do passado ser acometido da doença que matara um dos grandes líderes da Antigüidade. Será que Indy ainda poderia ser tratado? Havia chance de ser salvo?

–       A doença já está num estado avançado, ele foi infectado há semanas, e por ter se esforçado demais, isso agravou o estado dele… – explicou um dos médicos. – Creio que só exista uma solução…

O Preste João, que havia saído de seu trono e ouvido tudo, olhou para seus sacerdotes, seu olhar detendo-se por maior tempo no bispo Samuel Davi. Este movimentou a cabeça em sinal positivo. Baltasar XVII então ordenou aos súditos:

–       Arranjem uma maca, vamos levá-lo até o santuário.

–       Mas, meu santo rei, ele… – alguém protestou no meio dos presentes.

–       Não importa. Vamos levá-lo.

A filha de Fernando Pessoa apenas assistia a tudo aquilo, atônita. Pouco depois, junto com uma dupla de pigmeus trazendo uma maca, apareceram três mulheres resplandecendo de tantas jóias e beleza, acompanhadas por um grupo de doze crianças. Luzia contou seis meninos e seis meninas: aquela era a família do Preste, que logo se uniu a ele. Viu então Indy ser cuidadosamente deitado sobre o meio de transporte, que voltou a ser carregado, agora por dois sacerdotes, já que os serviçais diminutos não agüentariam o peso do arqueólogo. Ao vê-lo passar por si, a portuguesa constatou como a doença o havia debilitado: além das manchas, seu rosto perdera o vigor e ele parecia ter envelhecido, julgando-o com cinco ou seis anos de idade a mais do que na verdade possuía.

Agitada e sem saber de mais nada que poderia vir a acontecer, a moça acompanhou o cortejo para fora do salão.

Jones foi conduzido até a igreja onde ele e Luzia haviam estado anteriormente naquele dia. Durante o trajeto, mais súditos do Preste haviam se juntado à marcha, sendo que agora o templo parecia pequeno para abrigar tantas pessoas. A maca com o professor foi levada até o altar, e depois colocada no chão pelos carregadores diante da porta trancada à esquerda do crucifixo, a mesma que intrigara Indy. Nesse exato local todos pararam de andar, Luzia, o rei-sacerdote e mais alguns religiosos se destacando dentre a multidão.

A companheira do doente tinha quase certeza do que havia atrás daquela entrada, e a razão de ele ter sido levado até ali. O Preste João dirigiu algumas palavras ao povo na língua do reino, e então se aproximou do mecanismo existente perto da porta, inserindo seu cetro no cilindro que o compunha. O objeto encaixou-se perfeitamente no orifício, e seu peso específico ativou o sistema de engrenagens: conforme giravam, erguiam lentamente a estrutura de madeira que selava o lugar, desbloqueando o acesso a ele. O que havia lá dentro era imperceptível, dada a completa escuridão que dominava o interior da passagem, porém era possível notar uma enorme quantidade de pó no ar que de dentro dela provinha, um aroma de coisa oculta, de mistério.

–       A Câmara das Relíquias foi aberta! – anunciou o Preste.

Em seguida, um pigmeu saiu do meio das pessoas que cercavam a maca, tendo um pequeno frasco em suas mãos. Ele retirou a rolha que o tampava e aproximou-o das narinas de Indiana, para que o cheiro do conteúdo pudesse invadi-las. Surtiu efeito: a substância fez o arqueólogo recuperar de imediato a consciência, tossindo enquanto, auxiliado pela portuguesa, colocava-se de pé. O rei-sacerdote disse:

–       Se tiver fé, as relíquias do santo D. Sebastião poderão curá-lo do mal que o atormenta! Entre na câmara e busque a misericórdia divina!

–       Eu não sei se isso vai dar certo… – murmurou o norte-americano, extremamente zonzo.

–       Temos que tentar, Indy, eu irei com você! – falou Luzia, na qual o amigo se apoiava.

–       Lamento, mas você não poderá acompanhá-lo! – informou Samuel Davi. – É ele quem busca um milagre, e por isso deve sozinho vencer as provações e alimentar sua fé. Assim que ele adentrar a câmara, deverá trilhar por si só seu caminho!

Tanta conversa a respeito de fé, perseverança… Indiana não se identificava muito com esse tipo de assunto, mesmo já tendo testemunhado vários eventos e manifestações sobrenaturais… De qualquer forma, os etíopes não iam mesmo deixar que a jovem o acompanhasse: teria mesmo de seguir em frente sozinho. Havia um lado bom: se caísse morto dentro da tal câmara, pelo menos seria longe das vistas alheias…

–       Está bem, eu vou! – decidiu, fazendo um gesto para que Luzia o soltasse.

–       Que consiga alcançar sua cura, nobre estrangeiro! – exclamou o Preste.

Sem o amparo de Pessoa, Indy teve alguma dificuldade em manter-se de pé, por pouco não perdendo o escasso equilíbrio que lhe sobrara e caindo. Samuel acendeu uma tocha numa pequena pira que havia na igreja e entregou-a a Jones, para que pudesse iluminar o caminho. Assim equipado, mesmo vestindo a túnica rasgada e com um invencível mal-estar no corpo, respirou fundo e entrou pela abertura.

Depois de poucos passos pelo que aparentava ser uma caverna repleta de teias de aranha, Indiana notou alguns degraus: era uma escada que devia descer uns bons metros abaixo do santuário. Com o máximo de cautela para não escorregar ou pisar em falso, chegou ao fim dela, as paredes tornando-se lisas, polidas diretamente na rocha, com detalhadas pinturas mostrando grandes batalhas abexins, o Preste João, segurando uma cruz, liderando seus contingentes de soldados em campo. Outras gravuras retratavam os súditos do reino interagindo com o que pareciam ser portugueses, e acima deles, numa nuvem, a figura de Cristo abençoava tal encontro. O arqueólogo avançava pelo trajeto examinando as figuras com a luz do fogo, e também descobriu uma delas exibindo um grupo de guerreiros carregando o corpo de um homem branco de armadura, auréola em torno da cabeça… D. Sebastião, morto, sendo conduzido rumo à Etiópia!

Mais à frente, a passagem, até então um tanto estreita, ampliava-se, compondo uma sala circular. Aparentemente o caminho terminava ali, pois não havia qualquer outra saída a não ser por onde Indy viera. No centro do recinto, todavia, havia uma placa de madeira retangular presa horizontalmente a um poste de metal. Coçando o queixo, o aventureiro tentou pensar numa solução para o enigma, quando se lembrou das teorias do ancião de túnica branca, as mesmas que haviam originado a profecia envolvendo as relíquias… Trezentos e sessenta graus, tudo terminava numa volta completa, retornando ao início! Assim, empregando as poucas forças que lhe restavam, Indy começou a empurrar a placa de madeira, girando-a ao redor do poste, que por sua vez também se movimentava sobre o próprio eixo. Logo que o mecanismo deu uma volta completa, todo o lugar começou a tremer: uma porta secreta era revelada num dos pontos da sala, dando continuidade ao percurso rumo às relíquias.

Avançou, suando muito, a febre torturando-o. Estava agora num longo corredor, uma nova saída podendo ser avistada no final. Jones passou a percorrê-lo… Mas parou subitamente. A poucos centímetros de onde se encontrava, o chão de pedra cedia espaço a uma extensa fenda repleta de brasas ferventes! Tão certo como não sabia como aquele obstáculo era mantido sem que as chamas se apagassem, o que poderia ter alguma explicação mística, era que não tinha idéia de como atravessá-lo sem que queimasse os já doloridos pés!

Pôs novamente a memória para funcionar, procurando uma solução para o impasse em algo que tivesse ouvido antes, e novamente essa reflexão gerou frutos: contava-se que o tecido fabricado naquele reino, e conseqüentemente as vestes que o tinham em sua composição, eram indestrutíveis pelo fogo. Indy nem pensou duas vezes: rasgou mais uma parte da túnica, ficando agora com o tórax descoberto, e com os pedaços do pano improvisou dois envoltórios de proteção para suas sandálias. Desejando muito que aquilo funcionasse, ele deu o primeiro passo sobre as brasas, e então o segundo… Apesar do calor, não sofreu qualquer queimadura.

Desse modo chegou ao outro lado, perguntando-se o que haveria a seguir. Encontrou uma grande porta fechada, tendo de cada lado um pilar com um interruptor. Acima do esquerdo havia uma letra grega: Alfa, e embaixo do direito, o Ômega. Respectivamente, a primeira e última letras do alfabeto helênico. Início e fim. O princípio e o término do ciclo. Indy acionou-os nessa ordem, tudo sacolejando mais uma vez, enquanto a passagem era aberta…

O tremor levou o professor ao chão, e ele não se sentiu mais com forças para erguer-se. Sua visão ficava turva, ia tornar a desmaiar, talvez agora eternamente. Persistente, porém, rastejou para dentro da sala seguinte, que parecia ser a principal e mais ampla… Também em formato circular, rodeada por colunas, pinturas e estátuas, continha no centro um raso sarcófago de pedra aberto, e em seu interior, bem visível, uma bela armadura européia repleta de detalhes, completa com elmo. Os braços, unidos sobre o peito, seguravam solenemente o cabo de uma comprida espada que ali também repousava. Sob aquela reluzente carapaça, ocultos aos olhos indignos, impossibilitando assim saber se haviam sido milagrosamente conservados ou reduzidos apenas a um conjunto de ossos, encontravam-se os santos restos mortais do rei português D. Sebastião, “O Desejado”.

Engatinhando com muita dificuldade, cada movimento lhe provocando enorme dor, Indy, maravilhado, aproximou-se das relíquias. Lembrou-se então do que o Preste e o bispo Samuel haviam falado antes de descer até a câmara… Precisava ter fé, acreditar que o poder daqueles artefatos sagrados poderia restabelecer sua saúde. Pensou no pai displicente, na mãe que morrera cedo, em Marcus, sua paixão pela arqueologia… Em Luzia… E, num imenso esforço, esquecendo seu ceticismo, abandonando ao menos por um momento suas opiniões, ergueu um dos braços sobre o sarcófago… Tocando com a mão parte da armadura.

Não soube ao certo o que sentiu. Fraco, logo retraiu o braço, achando que talvez houvesse sido mesmo uma tolice dar ouvidos ao clero do Preste… Quando de súbito percebeu que o vigor havia lhe voltado ao corpo, que a febre sumira por completo, que sua pele ficara livre de quaisquer manchas pretas… E, aliviado, conseguiu levantar-se facilmente do chão, as dores e o mal-estar diminuindo mais e mais, até deixarem de existir. Olhou para as relíquias do rei lusitano, surpreso e agradecido… Estava curado.

A primeira atitude tomada por Jones foi fazer o caminho de volta até a igreja, visando comunicar a todos sua recuperação, e insistir para que ele, Luzia e Maputo partissem com D. Sebastião o quanto antes. Sorrindo, subiu os degraus da escada, confiante, com o gosto da vitória dominando sua mente… Quando ganhou o altar, encontrou os sacerdotes e outros súditos do Preste rendidos com armas de fogo apontadas para suas cabeças. Indy reconheceu imediatamente aqueles uniformes, aquelas faces… Luzia, por sua vez, era ameaçada pelo comandante dos inimigos, o cano de sua pistola mais uma vez encostado na testa da moça.

–       Boa noite, doutor Jones! – exclamou o coronel Fulco. – Surpreso com nossa visita?

–       Seu miserável… – grunhiu Indiana, revoltado pelo fato dos fascistas, agora em companhia de prováveis mercenários, terem conseguido chegar ao reino.

–       As relíquias estão lá embaixo, não estão? Homens!

Alguns dos combatentes se aproximaram, Ezio distribuindo ordens em italiano. Em seguida seis deles entraram na câmara, o arqueólogo trocando olhares inconformados com a portuguesa. Será que aqueles malditos nunca desistiam? Os clérigos pareciam a ponto de chorar, mas o Preste se mantinha firme. O grupo de soldados retornou minutos depois, tendo improvisado uma prancha de pedra sobre a qual carregavam o corpo de D. Sebastião. Fulco admirou as relíquias por alguns instantes, tateando a armadura, a espada, cada centímetro daquele tesouro histórico… Finalmente o havia encontrado, e agora ele seria transportado até o Dulce.

–       Eu poderia matá-lo, doutor Jones, mas acredito que seja melhor viver para relembrar sempre esta derrota! – afirmou o coronel. – Andiamo!

No entanto, eles não poderiam sair dessa forma, como se tivessem vindo buscar algo que sempre lhes pertencera por direito. Coube ao Preste João reagir: retirou uma adaga de baixo da túnica, partindo para cima de Fulco, que se distanciava de costas. Anis Bakr, sempre rápido, ergueu seu rifle e disparou, salvando a vida do sócio. O rei-sacerdote tombou ferido mortalmente no peito, caindo agonizante em meio aos súditos. O comandante italiano apenas olhou com desprezo para aquele que teria sido seu assassino, deu uma risada sarcástica e partiu com seu contingente e as relíquias, armas apontadas para os etíopes até que deixassem por completo a igreja, já que alguém poderia tentar vingar o governante baleado.

Logo que o último fascista saiu, os sacerdotes e médicos cercaram o Preste. Com sua túnica toda manchada de sangue, havia chances muito pequenas de sobreviver. Indy e Luzia podiam apenas lamentar, e a jovem notou algo estranho: as três mulheres e doze filhos do rei-sacerdote, apesar de assustados, não pareciam tão consternados com a morte deste. Pelo contrário, existia até certo alívio em suas feições. Foi quando surgiu pela porta à direita do altar, junto com o ancião de barba longa e túnica branca, Maputo, reaparecendo após tanto tempo. Ele usava as mesmas roupas de antes, porém seus dois companheiros surpreenderam-se quando ele retirou do bolso um medalhão dourado com um crucifixo no centro, colocando-o no pescoço.

–       Não pode ser! – Jones estava boquiaberto.

As três esposas e as crianças correram para abraçar o guia, confirmando as repentinas suspeitas dos aventureiros: Maputo era o verdadeiro Preste João! Aproximaram-se dele, curvando-se em reverência. Era mesmo incrível! Desde que haviam chegado à Etiópia, estavam na companhia do lendário rei-sacerdote! Luzia tentou se manifestar:

–       Eu… Não sei o que dizer!

–       A vida do Preste sempre correu constante perigo, por isso a importância de colocar alguém em seu lugar na maior parte do tempo! – explicou Samuel, andando até eles.

–       Estar na companhia de vocês também foi uma forma de prová-los, certificar-me de que eram realmente aqueles que deveriam encontrar as relíquias e completar o ciclo! – disse Maputo, ou melhor, Preste João, com uma pequena menina em seu colo. – Mostraram-se de grande valor, mas agora nossos inimigos levaram D. Sebastião!

–       Eles não serão vitoriosos por muito tempo… – murmurou Indy.

Pessoa olhou para o amigo, só nesse momento assimilando que ele realmente fora curado descendo à câmara. O determinado brilho em seus olhos retornara, assim como a bravura em sua voz. Seu físico permanecera um tanto envelhecido, mas sua saúde nunca estivera melhor.

–       Venha, Luzia! – ele chamou, já correndo para fora do templo. – Nós vamos atrás daquelas relíquias!

Glossário – Capítulo 12:

Presbítero: Termo que se refere a um líder em congregações cristãs locais. A denominação nasceu do grego Presbuteros, que quer dizer “ancião”, referindo-se aos líderes das comunidades cristãs primitivas. Hoje, equivale a padre, pastor, ministro, entre outros.

Tifo: Doença epidêmica transmitida por piolhos ou pulgas, causada pela bactéria Rickettsia prowazekii. Seus sintomas consistem principalmente em febre alta, dores no corpo e manchas na pele. O período de incubação dura de uma a duas semanas, quando começam a se manifestar os sintomas. O tifo está associado a más condições de higiene, e deve ser tratado com o uso de antibióticos.

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