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Conto: O Último Dia

O Último Dia

Marcos José Vieira Curvello

Quando acordei, ele estava lá. Era madrugada. Mais cedo, senti-me mal. Tive tontura, falta ar e um suor gelado que minava da testa e das palmas de minhas mãos. Pensei que morreria ali mesmo, antes da hora. Um colapso. Piedade divina. Mas seria demais esperar comiseração, fosse de quem fosse. Após muito gritar, o carcereiro arrancou-me à força do canto em que estava aninhado, entre a cama e o vaso sanitário, tentando em vão escapar das paredes, que pareciam se dobrar vagarosamente sobre mim. Fui arrastado até a enfermaria. Pela primeira vez quis que aquele filho de uma puta falasse alguma coisa, mas, não. Ficou em silêncio até me despejar sobre a maca, onde algemou minha mão direita. Após uma breve consulta, a médica disse que havia tido uma crise de ansiedade, quadro comum a prisioneiros que, no corredor da morte, aguardam o cadafalso. Serei enforcado amanhã, mas a vagabunda não se furtou a injetar-me uma boa dose de Vicodim e chutar para o limbo metade das poucas horas que me restam. Ainda sonolento, tentei entender porque não esperaram o “mesmo que eu ande pelo vale da sombra da morte” para enfiar outro exemplar produto da sociedade dentro dessa pocilga que eles chamam cela. Uma última afronta, ou a piedade que já não esperava? Talvez seja bom. Não sabia se queria passar o resto do tempo sozinho.

Ele tinha o rosto mergulhado em sombras, mas parecia me olhar, observar meus movimentos hesitantes e sem sincronia, ditados por um cérebro que ainda boiava em ópio. A luz da lua quase cheia, que passava pelas barras da estreita janela no alto da parede externa, me permitiu ver que é novato aqui. Seu macacão laranja é novo, sem as marcas dos anos de trabalho e lavagem em máquinas tão velhas quanto é possível que uma máquina de lavar seja. O número era 19476. Bordado do lado esquerdo do peito, ele tenta apagar qualquer traço de individualidade. Algo que consegue em parte, pois a partir do momento em que alguém entre aqui, seu nome, seja qual for, fica restrito aos arquivos da penitenciária, ao menos no que diz respeito ao trato oficial.

Creio que tenhamos nos fitado por alguns bons minutos. Suas mãos finas, de dedos longos, se moviam com precisão, enquanto, sem qualquer pressa, enrolavam tabaco, cujo cheiro brigava com o forte odor de urina, em uma fina folha de papel. As mãos e o cigarro submergiram na escuridão quando o levou à boca.

– Tem fogo? – perguntou em um quase sussurro. Levei alguns segundos para formular uma resposta.

– Se você tem um cigarro, deveria saber que, por aqui, fogo é tão raro quanto.

Ele arremessou o fumo no vaso sem sair do lugar.

– Vão te pendurar amanhã, certo? – questionou em um tom monocórdio, que não transparecia escárnio ou receio, aprovação ou repulsa.

– É.

– Porque?

– E porque deveria lhe dizer?

– Porque não tem outra pessoa com quem se lamentar.

– Te parece um favor?

– Na verdade, não. Parece-me uma troca. – afirmou, sem mudar o ânimo.

– Você parte amanhã. Não tem esposa, filho, amante ou pais. Também tenho estado sozinho há muito tempo e assim continuará sendo. É uma chance para ambos, não acha? – argumentou. Embora em qualquer outra situação não tivera sido lá muito convincente, a iminência do desaparecimento pareceu ter me tornado desesperadamente mais receptivo.

– Está aqui há quantos anos? – emendou.

– Três. Mais cinco na prisão estadual.

– Seus advogados conseguiram protelar a sentença… – disse, sem qualquer admiração verdadeira.

– Não tanto quanto gostaria. De repente, oito anos parecem-me pouco. – falei, mais para mim que para ele.

Olhei sua figura esquálida, ainda parcialmente escondida pelas trevas. Antes que pudesse pensar em perguntar-lhe qualquer coisa, sua voz de sotaque insondável me cortou o raciocínio.

– Já fui condenado. Agora, apenas faço o que tenho de fazer.

– Por que motivo?

– Rebeldia. Foi o que alegaram. – devolveu, lacônico.

Gargalho uma gargalhada dopada, que, embora tenha gerado protestos, vociferados das celas vizinhas, sequer o retirou do lugar. Raras vezes alguém é trancafiado por rebeldia, condenado à morte, então, era demais.

– Certo. E nos calos de quem você pisou? – questionei, ainda rindo.

– De gente poderosa, do alto escalão, pode-se dizer. Logo estava em um buraco. Mas, ainda me deram uma ocupação. – a resposta foi convicta, embora aparentemente displicente.

– E o que você fazia?

– Cobro dívidas, aqui e ali. Todo mundo deve, sabe?

– Então ainda faz?

– Sim. Aqui dentro mesmo existem muitos devedores. – lançou sem grande preocupação. Devia ser um desses sujeitos que trabalham para a máfia, pensei. Já havia visto alguns deles. Apagam os inimigos de seus mandantes na surdina, dentro da própria prisão. Geralmente são bastante cruéis e despreocupados com o que quer que lhes possa acontecer, já que, na maioria das vezes, estão de perpétua ou condenados à morte. O aumento de pena ou antecipação do inevitável não faz diferença para essa gente, já que estão perdidos, mesmo. Mas, eles costuma ter laços com o mundo lá fora. Alguém recebe o dinheiro dos serviços. Afinal, não há muito que fazer com ele quando se está preso.

– E você? – perguntou com algum ânimo.

– Matei um promotorzinho de merda. Meu advogado alegou que era doente mental e não tinha controle sobre meus atos, mas foi vingança, mesmo. Nem dei tempo para o desgraçado sacar a pistola que carregava na pasta. Assim que entrou em casa, dei-lhe seis tiros…

– Bem na cabeça! – completou, pela primeira vez com certa empolgação.

– É, isso. Bem na cabeça…. – repeti em reação oposta.

– Como o atraiu?

– Na verdade, apenas pulei o muro de sua casa, arrombei a porta da cozinha e o aguardei entrar. Já havia três meses que estudava sua rotina.

– Ele não foi o único, não é mesmo?

– Não. Assim que seu corpo desmoronou no chão, saí da casa. Parado no jardim, estava o carro, com a esposa e o filho pequeno. Enquanto ele olhava sem entender o que acontecia, ela tentava abrir o portão e ligar para alguém do celular. Ter de apanhar o aparelho na bolsa e passar para o banco do motorista me deu tempo para chegar suficientemente perto.

– Então, você acabou de estourar os dois.

– Sim. Ela, primeiro. O carro perdeu a direção e bateu de ré na cerca viva. Aproximei-me e acabei com o assunto, enquanto o moleque chorava e tentava entender o que era aquela massa pegajosa e vermelha que o havia acertado em cheio o rosto. – já havia revisto essa mesma algumas centenas de vezes, desde que o martelo do excelentíssimo senhor juiz ratificou com um estrondo o meu destino, lavrado por júri popular. Senti raiva, ódio, pena e arrependimento. Tive certeza e dúvida. Agora, não sinto nada. Não sobrara o que experimentar.

Após um breve silêncio, meu companheiro indagou.

– Que afronta tal “promotorzinho de merda” lhe causou?

– Colocou minha esposa na cadeia por conta de meio quilo de pó. Ela não tinha culpa. O negócio era meu.

– Por isso a desculpa da insanidade se desmantelou tão logo perceberam sua relação com o defunto… – pensou em voz miúda.

– Meu advogado era inexperiente e desesperado por uma virada bombástica em sua carreira sem brilho, o tipo de defesa que reservam aos pretos e pobres. Já eu, não estava ligando a mínima, para ser sincero.

– E ela, não te entregou?

– Não. Ficou calada até morrer de tanto apanhar de uma das seguranças. Estava grávida de cinco meses. – disse de forma quase oca.

– Então, você foi até lá e acertou as contas.

– Não me diga que ele não mereceu.

– De forma alguma. Mereceu, sim. Mas, isso é um ciclo. Dívida, cobrança, justiça, vingança. Cada débito pago gera uma nova conta.

– Mas não sobrou ninguém por aquele almofadinha. – desdenhei.

– Eis aí uma verdade. – redargüiu com um orgulho sardônico.

Um silêncio que pareceu durar uma eternidade se instaurou naquele cubículo. Em um movimento lento, mas econômico, ele se sentou. Finalmente pude distinguir seu rosto, muito embora mesmo agora seja incapaz de descrevê-lo. Naquele momento, percebi que não trabalhava para cartel, sindicato ou chefão qualquer. Seu trabalho não era saudar dívidas de sangue, jogo ou drogas. Então, experimentei o verdadeiro horror quando fitei seus olhos, tão negros que pareciam ser a fonte de toda a escuridão que se deitava sobre a Terra aquela noite e em cada uma das noites que pude ver em toda minha vida. A lua se escondeu sob um manto de nuvens e a penumbra cada vez mais opaca da cela se precipitou sobre mim. Tocou minha alma; um toque gelado. E sem escárnio ou receio, aprovação ou repulsa, ele disse, com uma voz de chicote.

– Amanhã, vou cobrar o que me deve e, creia, logo após o “mesmo que eu ande pelo vale da sombra da morte”, estarei à sua espera. Valha-te de vara e cajado, pois muito longa será a tua jornada.

2 Respostas

  1. Marcos mandando bem mais uma vez. Esse ainda foi melhor que o conto passado.

    Adorei o final. Até tava esperando realmente que aquela figura fosse realmente alguma entidade mística. Cheguei até pensar que fosse um anjo ou a própria morte.

    Muito fodão! Manda o Tarantino adaptar esse conto pra um curta Hehehe.

    Abraços

  2. Nossa parabéns Marcos! Adoro esse tipo de conto de terror/suspense ;D

    “… mas a vagabunda não se furtou a injetar-me uma boa dose de Vicodim…” Só me lembrei do Dr. House… ahsuahsua

    Fui ler o comentário do Diego antes de ler o conto, estragou a surpresa ;(

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