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Tomo da Traça: A Sangue Frio, de Truman Capote

A apuração é uma etapa decisiva na elaboração de uma matéria. Enquanto um jornalista conversa com suas fontes e personagens, checa documentos, vai ao local onde determinado fato ocorreu, ele começa a compreender algo que aconteceu, mas que ele não estava lá para presenciar. Ele, então, recria uma história a partir do relato do outro. Talvez, uma das qualidades mais impressionantes do repórter e escritor Truman Capote seja, além do texto impecável, justamente o modo como ele fazia as suas apurações. E não há maior prova da sua genialidade como jornalista – e ao mesmo tempo, como literato – do que a sua obra-prima “A Sangue Frio”.

Capote nos reporta à história de um crime que deixou em choque o estado do Kansas, no EUA, no ano de 1959. O cenário foi uma fazenda na cidade de Holcomb, que ostentava a tranquilidade típica de um lugarejo americano que abrigava apenas 270 pessoas e onde a diversão era ir à igreja aos domingos, e às festas da época da colheita. O fato, a chacina dos quatro integrantes da família Clutter. Os culpados, Perry Smith e Richard Hickock, que na tentativa de realizar um assalto à propriedade, amarraram, amordaçaram e mataram seus moradores, sem levar na fuga nenhum bem material de valor.

Conta-se que Capote estava no jornal quando leu a notícia do crime. Não animou-se muito com o fato, mas enxergou nele a possibilidade de contar uma boa história, e daí saldar uma dívida com o New York Times. Durante quase seis anos, passou longos períodos em Holcomb (ele voltava periodicamente a Nova York), e é possível imaginar olhar dos moradores para aquele homem sofisticado, irônico e de voz fina, que usava saltos para parecer ter um pouco mais de altura do que seus 1,58. Entrevistou dezenas de pessoas – entre elas, os assassinos – leu documentos judiciais, guardou recortes de jornais e se envolveu, literalmente, com a história que desejava contar. Capote era conhecido pela excelente memória. Segundo ele, durante as várias horas de apuração que fazia por dia, não anotava ou gravava uma palavra sequer na frente do seu entrevistado. Depois, em casa, passava todos os relatos a limpo, sempre a mão, o que rendeu-lhe milhares de páginas escritas e problemas nas mãos ao final do trabalho.

Mas o escritor foi muito além de simplesmente responder as perguntas o que, quem, quando, onde, como e por que. Ao longo das páginas do livro, ele leva o leitor a uma imersão na vida dos seus personagens reais. Você vai adentrar no cotidiano dos Clutter – o clima, a luz dourada do interior, a alegria e problemas típico de toda família, composta pelo patriarca, Herb, respeitado e querido na cidade, a esposa Bonnie, que sofria de algumas disfunções emocionais e um casal de filhos adolescentes, Kenyon e Nancy. Simultaneamente, será descortinada a saga dos dois assassinos. E é justamente nesse preâmbulo que o autor consegue um dos grandes méritos do livro: trazer todas essas pessoas – inclusive os criminosos – para perto do seu leitor, fugindo de qualquer maniqueísmo. Não, ele não faz uso do melodrama barato para convencer que Perry e Hick são coitadinhos, produtos de uma condição de vida difícil. Mas conhecer a trajetória deles consegue torná-los reais e é possível vê-los como seres humanos – mesmo que marginais – antes que se tornassem conhecidos como monstros. Aqui, é preciso fazer um adendo sobre um dos culpados, Perry Smith. Fica claro que, dentro da narrativa, ele ganha relevo e que recebe uma admiração especial por parte de Capote. Ao longo da pesquisa, eles se tornaram amantes, e foi ao conhecer a história dele que Truman Soube que estava diante de algo grandioso. Mestiço de brancos com índios, criado em um orfanato, apanhou e foi humilhado durante toda a infância. A despeito da miséria em que viveu, era uma pessoa sofisticada intelectualmente, que gostava de procurar palavras bonitas no dicionário para incorporá-las ao seu vocabulário e escreveu várias poesias para Capote nas cartas que trocavam. A indentificação entre os dois foi imediata.

No entanto, o elo que criou com a dupla e o caso que teve com Perry não impediram Capote de ansiar pela concretização da sentença de morte dos dois. Há quem diga que o jornalista, por conta da sua influência e do material que coletou, poderia ter evitado a morte deles, mas preferiu que o seu livro tivesse o final perfeito. Em uma de suas últimas cartas a Truman, Perry escreveu que ficara indgnado de descobrir que o título da obra seria “A Sangue Frio”. O autor esteve presente no enforcamento, que aconteceu no dia no dia l4 de abri de l965. Ele chorou todo o caminho de volta do avião. Em 25 de setembro do mesmo ano, o texto foi publicado em quatro capítulos no New York Times. O sucesso foi retumbante e, no ano seguinte, foi lançado em formato de livro.

É de impressionar como Capote escreveu uma obra em que o final é previamente conhecido – e mesmo assim, isso não diminui, em absoluto, o suspense e a tensão que envolvem a trama. Pelo contrário, ele conduz o texto de uma tal forma que mais parece que a angústia de ter o conhecimento prévio do rumo dos acontecimentos faz você não conseguir soltar o livro enquanto não chegar até o desfecho. À medida que o encontro entre vítmas e algozes está para contecer, a expectativa é eletrizante. O autor também não poupa seus leitores da violência da cena do crime, descrita em todos os detalhes por Perry e Rick. Ao terminar seu livro, ele escrevia seu nome na história. A sua obra ajudou a estabelecer um novo gênero e “A Sangue  Frio” se tornou um dos primeiros e mais polêmicos exemplares do New journalism, ou novo jornalismo, em que grande matérias são escritas em uma formato literário. Muitos dos seus críticos o bombardearam com a acusação de que seria impossível escrever um romance de não-ficção ou sem criar nenhum detalhe. No entanto, até hoje, ninguém conseguiu desmenti-lo em nenhum dos seus dados, e é de se imaginar quantos não tentaram. Eles não contavam com a apuração perfeita de Capote.

A SANGUE FRIO
Autor:
Truman Capote
Editora: Companhia das Letras

Número de Páginas: 440

3 Respostas

  1. CARALH* Júlia!

    Nossa… Tinha que soltar um palavrão. Muito bom, e bem escrito, o seu texto!

    Fiquei interessado pela trama do livro. Não vou mentir, dizendo que irei lê-lo, porque não sou lá muito de ter livros na cabeceira.

    Mas se esse post já foi envolvente, imagina o romance (se é que pode ser considerado assim). Ao meu ver, parece que o título é ambíguo até… Já que pode se referir também à atitude do autor em relação ao Perry.

    Beijos

  2. Pôxa, valeu, só vi agora, rapaz !!!

    =D

    Interessante a sua colocação. Não deixa de fazer sentido. Gostei da sinceridade (rs), mas se topar com o livro um dia, não deixe de aproveitar. É muito bom e você devora as páginas.

    Beijos

  3. Adorei … o texto do livro me parece excelente… coloquei na minha lista…bjocas

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