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Crítica: A Origem, de Christopher Nolan

Chama à atenção o fato de como o diretor inglês Christopher Nolan tem conseguido dirigir filmes que agradam tanto ao grande público quanto nichos bem específicos, e exigentes. Christopher e seu irmão-colaborador Jonathan Nolan atingem platéias grandes com filmes inteligentes de super-heróis (Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas) e dramas de época com toques de ficção-científica (O Grande Truque). A Origem (Inception/EUA, Reino Unido/2010), mesmo contando com um elenco estelar, não chega a ser a obra mais comercial do diretor; e apesar das inconsistências e de algumas expectativas frustradas geradas pela divulgação pré-estreia ainda é um filme fantástico.

A curiosidade surge pela abordagem de um tema bem pouco ou mal explorado por Hollywood, a manipulação dos sonhos. Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt, do seriado Third Rock From the Sun) habitam um mundo onde o estado da arte da tecnologia permite que se adentrem os sonhos de terceiros, para nesse mundo onírico poder extrair as informações mais diversas. Como quase tudo que rege a vida humana, o objetivo final é o retorno financeiro, e a técnica é usada para espionagem industrial. Após um trabalho mal-sucedido, Cobb e Arthur se encontram numa empreitada complexa; Saito (Ken Watanabe), diretor de uma grande empresa de engenharia, exige não a obtenção de informações acerca de planos expansionistas de seu maior concorrente, mas sim a inserção de uma ideia na mente do oponente.

Assim, está armado o cenário para um misto de suspense, drama e ficção-científica. Entretanto, há de se fazer duas ressalvas, antes de mergulhar numa cadeia de elogios ao filme, que tem sido considerado por muitos o melhor do ano de 2010 até o momento. A primeira diz respeito a pouca ousadia do roteiro em realmente explorar as possibilidades de um universo onírico, inclusive sendo muito pouco criativo no quesito obscuridade. Toda uma gama de situações estranhas que habitam e permeiam os nossos sonhos poderia ter sido abordada e mostrada, assim como os primeiros trailers davam a entender que seria feito. Contudo, este fato encontra uma explicação bastante plausível e de acordo com o andar da história, mas a sensação que fica é que o ambiente criado poderia ter sido aproveitado com mais eficácia. Outra observação é que o roteiro não tenta fugir das comparações com outros filmes de temática bastante parecida, como Matrix e O Décimo Terceiro Andar. Inclusive, a sequência onde a personagem Ariadne (Ellen Page) é treinada é muito semelhante à do filme dos Irmãos (ou Irmãs!?) Wachowski.

Se você for capaz de superar esses pequenos detalhes, incômodos para alguns e nem tanto para outros, é bem provável que se divirta bastante. Assim como em quase todos os filmes assinados pelos irmãos Nolan, todo um quebra-cabeça é montado para que os protagonistas atinjam o objetivo-mor, e as peças vão sendo encaixadas de maneira dinâmica e inteligente. Cada passo dado por Cobb e seu time de farsantes dos sonhos é motivo para suspense incrementado e para cenas de ação de encher os olhos. Como poucos, Nolan sabe filmar sequências de perseguições quase que totalmente livres do uso de CGI (Computer Generated Images),e isso é um trunfo num momento onde o uso de computação gráfica ameaça o cinema de ação cru e bem feito.

É justamente a inteligência com que o filme é conduzido, junto com a enorme quantidade de nuances de roteiro com as quais o espectador tem que lidar, que ajuda A Origem a ser alardeado como um filme confuso. Não, a plot não é complicada, mas o texto não perde tempo com explicações muito didáticas e não subestima a capacidade da platéia. Ou seja, é um filme que requer atenção, e assisti-lo em uma sessão zoneada pode minar o bom efeito entorpecente. Todas essas qualidades são alicerçadas pela ótima trilha de Hans Zimmer e por um elenco muito bem escolhido; especialmente, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy demonstram confiança e total domínio de seus papéis. O grande chamariz, Leonardo DiCaprio, não compromete e até tem bom desempenho. Antes de ser um bom ator, DiCaprio sabe muito bem escolher de quais projetos participa, qual ex-ídolo adolescente já conseguiu trabalhar com gente do naipe de Steven Spielberg, James Cameron, Sam Mendes, Ridley Scott, o próprio Christopher Nolan, e virar ator-fetiche de Martin Scorsese?

É A Origem o melhor filme de 2010? Difícil dizer, mas é muito provável que se situe entre os três melhores. O casamento de ação, drama, suspense e ficção científica de forma inteligente e com tudo se encaixando nos seus devidos lugares só confirma a qualidade do cinema autoral do diretor que explodiu a cabeça de todo mundo há uma década com Amnésia. Fiquem ligados no Gaveteiro, pois no próximo fim de semana tem mais Christopher Nolan neste mesmo bat-canal. Boa diversão!

Notas (numa escala de 0 a 5):

Imagem: 5

Som: 5

Geral: 4.5

*Imagens: Rotten Tomatoes

**Trailer:

2 Respostas

  1. “A origem”

    Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
    Há, no entanto, um pequeno detalhe.
    A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
    Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
    Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
    Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.

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